"Os arranhões que ainda me ardem nas costas, ardem agora para me lembrar que a outra noite existiu e esta dor é a única coisa que perdura. Enquanto não consigo a minha estabilização física tento distrair-me com um livro. (...) Ao fim de uns quantos primeiros capítulos apercebo-me que o que quero ler ainda ninguém escreveu. Ninguém me disse o desenrolar desta minha nova paixão. (...) Tenho receio que venha esta nossa história a acabar como todas as outras cartas que redigi e enderecei e pus na gaveta da minha secretaria. Disso não me arrependo. Porque de todas elas já me esqueci. É sempre difícil saber ao início o fim, ter a mínima noção se pode sequer existir um “pós-inicio”. Tenho sempre um desconfortável calor que me sobe o corpo, que me faz suar e sentir atrapalhado quando penso sequer no teu nome, se calhar vou dar mais uma olhadela na prateleira, tenho quase a certeza que já alguém escreveu sobre isto, ou se calhar é só porque imagino esta historia todos os dias desde há algum tempo. Também me custa pensar que esta vai ser mais uma carta na gaveta da minha, já velha, secretaria. Acho que às vezes ainda gosto de pensar na minha vida como um daqueles romances melosos com todas aquelas incidências do destino, acho que todos nos pensamos nisso pelo menos uma vez na vida. Mas isso tenho a certeza que já alguém escreveu. Não adiantou de muito porque as costas ainda me ardem, acho que tão cedo não volto a enganar-me a mim mesmo, pelo menos enquanto não decidir se guardo a carta na gaveta. Ou então que um dos meus amores me traia. Ou os dois."
in "Eles eram dois, daí só ficou um"
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