Dois passos atrás #2


Gostava de ter uma casa
No terraço de um prédio,
Com vista para o sol,
Com vista para o horizonte,
Com vista para a ténue linha
Que separa a realidade da imaginação.
Gostava de morar no terraço
Da vida, donde tudo visse
E tudo pudesse saborear.
Donde ouvisse todos os ventos,
Donde todos os ventos me ouvissem.
Eu gostar gostava.
Gostava de ser ouvido
Gostava de ser percebido
E ao mesmo tempo não gostava.
Mas tenho medo,
Medo de falhar,
Medo de perder a juventude,
Medo de deixar de ser jovem,
Medo de ser aquilo que agora repulso.
Mas estou certo de uma coisa
O meu maior medo
É deixar de sentir
Esse mesmo medo.

Dois passos atrás #1


Tudo o que eu digo,
Tudo o que eu faço,
Tudo o que eu passo,
Só eu sei, porque só eu o passo.
Passo com imenso orgulho de passar.
Faço porque só isso me faz orgulhar.
Digo porque só por isso, é que não grito comigo…


Não sei porquê, mas tenho pensado muito nos verdes jardins onde eu e tu, outrora, ao abrigo de um grande palácio, brincava-mos, brincava-mos e eu enchia-me de tédio. Mas esse tédio era só alegria, porque não era somente tédio, era o meu tédio. Agora que só posso sonhar com essas tardes tento viver, as de agora, com quem antes as partilhava comigo. Faço isto por mim, não por vós.

Não quero ser esquecido nem em mil gerações
Quero que me lembrem não como grande
Mas também não como outro qualquer.
Quero que me lembrem,
Que escrevam o meu nome
Enquanto aprendem que a vida
É o que nos dela fizermos.
É uma aventura,
Uma tortura,
Uma alegria,
Um sofrimento,
Um pavor, …
Não me glorifiquem pelo que eu faço,
Não me glorifiquem pelo que eu digo,
Glorifiquem-me, isso sim, pelo que eu penso.
Lembrem-me como eu me vou lembrar de todos aqueles que de mim se lembraram.

Lembrar ou ser lembrado?
Seguir ou ser seguido?
Egocentrismo ou vontade de explodir?