"Chegamos daqui a 15 minutos. Encostei-me a ela e fiquei calado a admirar o movimento natural das pessoas que se apressavam a desfazer os fortes e a arrumar as malas. Havia pessoas que esvaziavam colchões de ar, miúdos sonolentos a serem agasalhados pelos pais e havia ainda aquele casal de velhotes que, na mesma mesa e cadeiras do dia anterior, com a maior calma do mundo, tomava o seu café da manhã. (...) Aproximava-me calmamente da porta do barco, sabia que uma vez que dali saisse não a iria ver durante uma semana (...) . Mas naquele momento não se senti triste, nem angustiado, nem nenhuma das sensações que era habitual sentir-se quando se separa de alguém com quem se gosta de estar. Sentia-se com a naturalidade de quem sabe que aquele é o caminho que é suposto seguir, com a alegria de quem recuperou a confiança na vida em si, de quem tem a certeza de que o Destino existe para garantir que as coisas correm bem (...) . Olhou-a nos olhos e sorriu, ela passou-lhe o braço em volta do pescoço e beijou-o na face, toda a gente estava a ver mas ninguém realmente viu..."
"Pousei a roupa numa cadeira vazia perto da piscina e entrei, ela tinha mergulhado e veio à superfície a pouco mais de um metro de mim, olhava-me com aqueles olhos azuis, ainda mais azuis por todo o azul que nos rodeava, olhava sem dizer nada, sorrimos um para o outro, via aqueles olhos intensos e sentia que os tinha visto a vida toda sem sequer reparar neles. Aproximámo-nos, a água chegava-me agora pela altura do peito, segurei-a pela cintura e cheguei-a até mim de modo a ficarmos a um milímetro de distância um do outro, ela apoiou os braços sobre os meus ombros e foi encostando os lábios aos meus. Deixei de ouvir, só conseguia sentir o sabor dos lábios dela, o calor da língua dela a acariciar a minha, já não me sentia assim já lá iam muitos meses, aliás, já me tinha esquecido como era beijar, tive medo que ela notasse. Mas quando parámos, o sorriso dela era ainda maior que o meu, não receei mais nada, aquela água parecia mais deliciosa que a da praia em que tinha passado os dias anteriores."
"Desta vez não tremi, aproximei-me dela e deixei-me ficar para que ela me visse, deixei que ela sentisse que eu a queria. Ela viu-me, ela sentiu-me e desta vez não deixou de me fitar. Juntei-me a ela e começamos a dançar ao som daquela música que parecia cada vez mais distante, sentia o cheiro do seu perfume, fechei os olhos para o conseguir absorver. Não ousava tocá-la, dançávamos cada vez mais próximos, queria agarra-la, queria senti-la junto ao meu peito, queria puder passar as mãos pelas suas costas, ir descendo devagar até ao início do vestido. Sentia os olhos dela furarem-me a alma, os seus lábios cada vez mais pareciam gritar pelos meus. Estávamos agora no centro da pista, rodeados por pessoas que se agitavam ao som de uma música que eu já não conseguia distinguir por detrás dos batimentos do meu coração, encostei os meus lábios ao ouvido dela e respirei devagar para ela sentir que eu estava vivo por ela. (...) Senti as mãos dela segurarem-me na cabeça, passei as mãos ao longo do seu corpo, sentia cada fibra do seu tecido como um estímulo cada vez maior, beijei-a."

"...sentada numa das pequenas rochas que ligavam a areia às árvores, estava uma rapariga. Não conseguia ver nitidamente como ela era devido à pouca luz, saltava à vista o cabelo liso a cair nos ombros, os cabelos claros iam deslizando ao longo das suas feições queimadas pelo sol. Despertou em mim uma sensação de calor interno, se estivesse de pé estou certo que as minhas pernas tinham vacilado, mas ela nem tinha reparado que eu estava ali, ou se tinha, tinha-me assumido como parte da paisagem, pois fitava descontraidamente aquela imensidão de negro até ao horizonte."
"Aquela areia tão suave entre os dedos dos pés, preenchia-me ainda mais com a sensação de que, naquele pedaço de mundo, nunca haveria ódio ou tristeza. Era um pequeno canto no planeta que parecia nem sequer fazer parte dele, e só com muito esforço o encontrávamos no mapa."